Better - Regina Spector
Queria encontrar uma adaga
Pra poder estraçalhar meu braço
Mas até o cansaço de procurar
Já me faz desistir
Se você enfiar a adaga nos órgãos a dor não vai passar
Possivelmente aumente
Então qual é o sentido
Da autodestruição?
Quando abrirem meu estômago e minhas entranhas no necrotério
Vão ver que não havia literalmente nada
O médico vai ficar completamente atordoado
Pela coisa mais vazia que ele já presenciou
Não me arrependo
Por que você é um hipócrita
E nem sob o efeito, não me arrependo
Pois tenho o direito de não me arrepender, e de não me torturar
Eu deixo isso já para os outros, mesmo que mal me afete
Nada funciona, álcool não me faz esquecer
Psicodelia também não, eu vou é sentir ainda mais
Não cogito as drogas comuns
Além da própria morte
Preciso de outra pessoa para me apossar
Para virar de fato uma sugadora de energia
Alguém que eu possa sufocar com meu amor
Até que não exista mais nada
Até que eu nem mesmo a ame e a valorize mais
Até chegar a completa desvalorização do eu
Até cuspir e escarrar na sua cara
Não há outra maneira de amar
Com uma mente tão doente
E eu realmente não me importo
Diga agora
- Ela é louca, farinha do mesmo saco. -
Tudo nisso foi uma grande piada
De ambos os lados, uma tragicomédia
De um lado: a rejeição mais óbvia que uma vagabunda velha entediada iria te dar
Do outro, a mula empacada que não consegue amar um homem fraco
Não me importa mais
Se é doença
Se sua vida é fácil
Tudo que sobra
É o vazio
E o vento frio me ninando
Fechar os olhos quando a agulha entrar
Pois não suporto a agonia
E é mais sobre a agonia
Pois ela sempre volta, diferente da dor em si
Não queria dar fim a vida
Mas só desaparecer do sofrimento
Desaparecer daqui da mesma forma
Do mapa
Dos loucos
Dos entediantes
Da minha própria mente torturante
Os cortes nas minhas coxas
O calor da cidade
Os desencontros que a vida trouxe
Há uma verdade?
A verdade é
Devo fazer o possível para melhorar esse sofrimento agora
Ou devo sofrer de vez, e ver se sobrevivo?
Só pra depois saber que eu vou sofrer da mesma dor
Alguns não sabem o que eu observo
Mas eu vejo
E eu sei o que me pertence.
“Para sobreviver, seria preciso que ela fosse mais cínica ou, pelo menos, mais próxima da realidade. Em vez disso, ela era uma poeta na esquina, tentando recitar seus versos a uma multidão que lhe arrancava as roupas.” (BUCHTHAL; COMMENT, 2011, pg. 37)"


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