Sobre o verdadeiro perdão, a dor do transtorno mental e (o recomeço) continuação da vida.
O ódio não faz mais sentido nenhum. Muito menos lutar pra ser aceita ou entendida por alguém que não é capaz de ver o que você vê.
Foi o preconceito? Foi a sociedade? Foi o narcisismo? Vocês eram predestinados a reproduzirem algo ruim?
Eu me questiono agora: existe uma conclusão final e correta para a vida? (Eu já considerei que sim, mas você vai ver no final o que me fez mudar de ideia)
O venvanse alterou meus neurotransmissores e tudo fez sentido agora. Isso é ser "normal"? Ser normal é conseguir focar claramente como consigo agora?
Eu nunca vou entender o fato de que nem tudo pode ser dito, e de que algumas coisas nunca serão claras como a neurodivirgente em mim deseja que sejam.
Eu nunca vou entender por que você não sente tanto quanto eu sinto, justamente por meu mundo ser diferente do seu, a minha interpretação e meus sentidos são diferentes dos seus. E os seus provavelmente são diferentes dos outros também.
"Well, what the hell, this ain't gonna sell, so what I wanna tell?"
Me perdoem pelos sentimentos de uso, se um dia já os causei, meus amigos, me perdoem pelos sentimentos sem fim que não podem ser ignorados ou passados por cima quando se sente demais como eu sinto.
Me perdoem pelos prazos sem fim, pela desorganização, pelas crises de choro, pelas horas de fala de tudo que tanto me dói e me doía, pelo possível egoísmo, que talvez seja só a total imaturidade de lidar com tanto. Por ter tanta dificuldade em seguir o ABC da vida quando os impulsos falam tão alto, e quando pegam tudo que tenho de tão, tão frágil.
Pedir perdão também pode ser uma forma de se perdoar e libertar a si mesmo.
Quando a emoção passa, eu vejo tudo com mais clareza: o choro se vai, e o que fica?
O que causa o transtorno de personalidade borderline, além da predisposição genética, é o possível abandono na infância. O que ninguém repara, de fato, é como isso é um sofrimento do começo ao fim para o portador.
Me assusta o fato de que talvez eu tenha o transtorno (mas talvez não) vai, quer dizer, eu já sinto tudo isso, então seria pior mesmo se eu tivesse? O diagnóstico é tão libertador, é uma chance de se entender e de cuidar de si mesmo.
Por muito tempo, culpei meus pais pelo abandono que eu sofri no final da minha infância, aquela sensação de não poder falar, de não ser ouvida, de não ter suas necessidades atendidas. Depois de 10 anos, reconheço que eu ter uma certa instabilidade afetiva não é exatamente culpa deles e nem minha.
A verdade é que minha mãe é uma das poucas pessoas que nunca me abandonou ou desistiu de me apoiar. Mesmo quando me critica, ela está lá. Ela dá o que pode por mim.
E se, tudo isso, for só um trabalho do acaso? Você acredita no divino? Ou concorda que a natureza é só uma bela aleatoriedade que funcionou pra estarmos aqui, vivos?
"Mate, consuma, reproduza, conquiste"
Esse é o bordão da Deusa do Câncer, aparentemente o que "causou" a vida, aparentemente, o que faz ela acabar e continuar. O contrário disso é a Deusa do Tudo Mais, tudo mais além de: Mate, consuma, reproduza, conquiste.
Tudo mais que temos e que podemos fazer nesse mundo, e nesse universo, além de algo que só cause destruição e competição.
Eu me pergunto, se no fim, só ir contra a Deusa do Câncer, não é mais do que suficiente, e que no fundo, não é exatamente sobre uma ideologia ou uma vida livre de erros. Somos filhos da Deusa do Câncer, a aleatoriedade criou a vida, isso faz parte de nós em algum grau, mas eu acredito que tudo mais que existe no mundo, além dos seus ensinamentos, é o verdadeiro motivo para encontrarmos felicidade.
Felicidade, sentido, conexão.
Porém é mais difícil perdoar alguém que errou tão copiosamente e que não tem a capacidade de se redimir e tentar ser alguém melhor. Esse é o tipo de coisa que só o tempo vai curar.
Felizmente, aprendi anos atrás: não posso viver esperando a desculpa e o reconhecimento do erro do outro. No fim das contas, eu só confiei em alguém ruim, ou, no mínimo, incapaz de ser responsável. Liberte mesmo assim (você nunca seria quem eu esperava que você fosse, eu vejo agora).
O medo de ser borderline (medo que nem faz mais tanto sentido, pensando agora) vêm me perseguido assim como a falta de impulso de iniciar qualquer atividade pelo TDAH. O medo do abandono, as crises de choro, a vontade de ser cuidada, a incapacidade de terminar relacionamentos com babacas, o questionamento que sempre vem na minha cabeça: você vai me deixar se eu cometer qualquer erro?
O diagnóstico não é mais problemático do que todos os sintomas, no fim das contas. Vejo o sentido da vida ao ver uma criança autista carregar seu brinquedo de apoio e saber que ela é aceita e feliz. Acho que é libertador saber que ele vai ter toda a compreensão que eu não tive quando pequena. Lembro de como foi libertador saber que eu não era maluquinha quando senti uma roupa "queimar" no meu corpo aos 5 anos, ou da extrema agonia que tinha a tirar sangue, e que isso era só sensibilidade sensorial.
E agora isso parece tão suficiente, como se meu irmão ser compreendido pagasse o sofrimento e incompreensão que eu passei. Posso dizer que eu lutei tentando convencer a nossa mãe a ver isso a tempo, e agora você tem uma chance melhor que eu.
Às vezes eu sinto a agonia tão vividamente que tenho vontade de me matar. Eu sinto uma dor tão grande que me matar parece ser a coisa mais simples a se fazer.
No outro dia, talvez, se eu consegui me recuperar, você poderia me ver dançando e cantando ouvindo Spotify.
Não preciso e não quero ser "normal", não me importo em ser taxada de louca, ainda mais quando isso só é usado pejorativamente por pessoas realmente maldosas, diferente de pessoas que simplesmente tem um transtorno e sofrem por ele.
Vou ser TDAH e Autista pelo resto da vida, nunca vou saber como é não sentir tanto e tão intensamente. Talvez nunca aja da maneira "aceitável socialmente" (e nunca fiz questão disso, nunca quis me mascarar), e tá tudo bem.
Minha melhor amiga da vida (que não está mais do meu lado), Júlia, tem bipolar, e eu vi com meus próprios olhos uma das pessoas que mais considerei na vida ir de uma crise de mania à ser internada em um hospital psiquiátrico por estar extremamente depressiva e não conseguir viver.
Soube que ela era autista e teve o diagnóstico tardio, e talvez nunca tivesse desenvolvido a bipolaridade se tivesse tido o diagnóstico e o tratamento correto. Quando eu soube disso, pensei comigo mesma: acho que realmente não foi culpa ou descuido dos nossos pais. Me deu um alívio, e ao mesmo tempo uma dor por saber que não fomos as primeiras e nem as últimas que passaram tanto por não saberem que tinha um transtorno desde a infância.
Que mais do que os outros, precisavam de algum cuidado especial, mas isso é só a aleatoriedade da vida, sem o "tudo mais" (esse, que nós que existimos somos supostos a criar).
Sei que minha vida e a da Júlia não acabou pelo atraso do nosso diagnóstico (e a consequente falta de tratamento) mas como diria Lexi em Modern Love:
“Sei que não existe cura para o desequilíbrio químico do meu cérebro, assim como não tem cura para o amor”. Porém, com o tratamento, é possível ter uma vida saudável, trabalhar, conhecer pessoas e encontrar a felicidade.
Não sei se a partir de agora vou ter motivação pra conseguir seguir o caminho que quero seguir, para ser neurobiologa e fazer alguma diferença em tudo isso como tanto aspiro, mas eu tenho um comprimido laranja e branco que me dão o foco que eu nunca tive, inspiração e muita vontade de fazer a diferença.
Mais do que isso, eu tive a oportunidade de lembrar tudo que faz sentido pra mim: da compaixão por todos os seres (metta) até um futuro que seja diferente de tudo isso, até os desbravadores de galáxias. Se não estamos na realidade que queremos, podemos cria-la.
Sei que a vida ainda vai ter dificuldades, julgamentos idiotas e sem nenhuma empatia, mas depois de tanta bagunça que foram meus últimos meses, eu estou pronta pra seguir o meu caminho, o que é, de fato, o verdadeiro pra mim.
Pensar no futuro, seja ele utópico ou não, me motiva, por que é lá que podemos ter o que tanto estamos lutando para conseguir. É lá que encontro o "tudo mais", e não toda a ladainha que só causa dor e sofrimento: toda a perda de tempo e julgamento que no final não muda nada para melhor.
Conheça a Deusa do Câncer e a Deusa do Tudo Mais:
Dedicado ao Pedro por me fazer lembrar de coisas boas e o sentido da vida que existem em mim quando nem eu mesma estava lembrando, e por me apresentar o conceito tão maravilhoso da Deusa do Tudo Mais.
Dedicado também a Júlia Oganauskas Roseno, por ter sido a melhor amiga que já tive, por ter me ensinado tanto, e por ter me acompanhado nessa época em que eu conheci e vi tanta esperança e sentido no mundo e no futuro, esperança essa que o Pedro me mostrou novamente.
Muito obrigado a todos vocês e a todos que já me ajudaram nessa caminhada, e principalmente, nesses dias recentes que foram tão difíceis.
Modern Love e a citação que fiz no post: https://deliriumnerd.com/2021/09/28/modern-love-e-a-forma-honesta-de-falar-sobre-transtorno-bipolar/


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